ESTAR NAS RUAS NÃO É SINÔNIMO DE MARGINALIDADE
Ponderava Nietzsche de que “é necessário ter um caos dentro de si para poder gerar uma estrela”. De certo um pensamento impactante e de valor motivador inquestionável sendo, desta feita, o ponto inicial pelo qual iremos iniciar a nossa reflexão.
Sobreviver ao caos das ruas com certeza é um desafio inquietante. Um desafio vivido e presenciado todos os dias; constituído das incertezas de uma vida madrasta onde sobram sempre com mais polpa as dificuldades fortalecendo inevitavelmente o impedimento das oportunidades de melhoria. O profundo caos desse abismo sem fim se faz oriundo de “perdas, vícios, doenças mentais, instabilidade econômica e emocional, abandono familiar, desesperança, preconceitos e discriminações, relacionamentos abusivos, desemprego, violência física e psicológica” como aponta a revista SP invisível em interessante artigo sobre a temática.
Assim sendo, não nos cabe nesse momento debruçar sobre todos os fatores que podem levar uma pessoa a estar em situação de rua - que são os mais variáveis e intricados possíveis. Não iremos tratar pormenorizadamente de cada um destes fatores e que serão tidos como razões para tal situação de vulnerabilidade social.
O blog Nós também pensamos, a opinião de quem vive e sobrevive nas ruas do Recife, é a voz e a verdade dessas pessoas. Pessoas que afrontam o destino padrasto e apesar de tantas intempéries também lutam, também constroem, também vencem e principalmente pensam. E pensam com dignidade e esperança. Refletem a melhoria não apenas de suas respectivas condições, mas a melhoria de sua cidade. Também reconhecem o valor de um assistencialismo sempre presente e pontual e que torna o deserto de suas vidas menos caótico e mais suportável. Também lutam para uma sociedade com mais cidadania e igualitária; também se esforçam pela ordem, pela paz e pela segurança. Também criam, inventam e fazem arte. E principalmente afrontam o preconceito sempre presente e em uma só voz gritam que “estar nas ruas não é sinônimo de marginalidade”.
E que a sociedade, cada vez mais destituída do preconceito, possa contemplar as pérolas que se fazem enterradas nas lamaçais da ignorância; pérolas que contrariando o caos existencial no qual se encontram, brilham com inquestionável louvor.
Cícero Felipe
